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Para as crianças, o TEMPO já passa muito devagar. Elas correm de um momento para outra, ansiosas para que cheguem seus aniversários e novos anos, mal conseguindo esperar pelo resto de suas VIDAS. Os mais velhos desejam desesperadamente parar o TEMPO, mas estão lentos e fatigados demais para apanhar qualquer pássaro. Para os idosos, o TEMPO voa rápido demais. Eles anseiam por capturar um único minuto do café da manha, á mesa tomando chá, ou um momento em que um neto fica preso nos panos quando tenta despir-se de uma fantasia, ou uma tarde em que o sol de inverno reflete na neve e banha de luz a sala de música. Mas são lentos demais. Precisam ver o TEMPO pular e voar para além do seu alcance.
Em um MUNDO de FUTURO determinado, não pode haver certo ou errado. Certo e errado exigem liberdade de escolha, mas, se cada ação já esta escolhida, não pode haver liberdade de escolha. Em um MUNDO de FUTURO determinado, nenhuma PESSOA é responsável. Os quartos já estão arrumados. O farmacêutico pensa todos esses pensamentos enquanto caminha pela trilha que cruza a Brunngasshalde e respira o ar úmido do bosque. Ele quase se permite um sorriso, tão satisfeito está com sua decisão. Respira o ar úmido e sente-se estranhamente livre para fazer o que bem entender, livre em um mundo de liberdade.
Neste MUNDO, o TEMPO é um fenômeno local.
Dois RELÓGIOS, um ao lado do outro, batem quase no mesmo compasso. Mas RELÓGIOS separados pela distância batem em compassos diferentes; quanto mais distantes, mais fora do compasso. Este principio que marca o movimentos dos RELÓGIOS vale também para as batidas cardíacas, o ritmo de inspirações e expirações, o movimento do vento no capim. Neste MUNDO, a velocidade do TEMPO varia de local para local.
Minutos mais tarde, o MUNDO pára de novo. Então, começa de novo.Pará. Começa.
Que MUNDO é este? Neste MUNDO o TEMPO não é continuo. Neste MUNDO o TEMPO é descontínuo. O TEMPO é uma seqüência de filamentos de nervo: á distancia, parece ser continuo, mas, de perto, revelam-se suas varias partes, separadas por microscópicos vãos. Ação nervosa flui por um segmento de TEMPO, pára abruptamente, pausa, pula o vácuo, e reinicia no segmento seguinte.
De fato, esse é um MUNDO sem FUTURO. Neste MUNDO, o TEMPO é uma linha que termina no PRESENTE, tanto na realidade quanto na mente de cada um. Neste MUNDO, nenhuma PESSOA pode imaginar o FUTURO. Imaginar o FUTURO é tão possível quanto ver cores além do violeta: os sentidos não podem conceber o que pode estar além da extremidade visível do espectro.Em um MUNDO sem FUTURO, cada vez que amigos se separam é uma morte. Em um MUNDO sem FUTURO cada solução é definitiva. Em um MUNDO sem FUTURO, cada risada é a ultima risada. Em um MUNDO sem FUTURO, alem do PRESENTE está o nada, e as PESSOAS se agarram ao PRESENTE como se estivessem penduradas á beira de um abismo.
Suponhamos que o TEMPO não seja uma quantidade mas uma qualidade, como a luminescência da noite sobre as árvores no preciso MOMENTO em que a lua nascente toca o topo das copas. (…)
Algumas PESSOAS tentam quantificar o TEMPO, analisar o TEMPO, dissecar o TEMPO. Elas são transformadas em pedra. Seus CORPOS ficam parados, congelados nas esquinas, frios, duros e pesados. Com o TEMPO, essas estátuas são levadas para o cavouqueiro da pedreira, que as recorta em partes iguais e as vende para construções de casas quando precisa de dinheiro.
Suponhamos que as PESSOAS VIVAM eternamente.
Estranhamente, as populações de cada cidade estão divididas em dois grupos: os Depois e os Agoras.
Os Depois consideram que não há pressa para entrar na universidade, para começar a aprender uma segunda língua, para ler Voltaire ou Newton, para lutar por uma promoção, para se apaixonar, para construir uma família. Para todas essas coisas há um TEMPO infinito. No TEMPO sem fim, todas as coisas podem ser realizadas. Assim, todas as coisas podem esperar. Na verdade, ações apressadas podem levar erros. E quem pode argumentar contra a LÓGICA dessas PESSOAS ?
Os Agoras percebem que, com VIDAS infinitas, eles podem fazer de tudo o que puderem imaginar. Terão um número infinito de carreiras, casarão um número infinito de vezes, mudarão suas crenças políticas infinitamente.(…) E quem pode argumentar contra a LÓGICA dessas PESSOAS? (…)
Esse é o preço da imortalidade. Ninguém é completo. Ninguém é livre. Com o TEMPO, alguns chegam a conclusão de que o melhor jeito de VIVER é morrer. Na morte, homens e mulheres estão livres do PASSADO.
Algumas poucas PESSOAS nascem sem qualquer sentido de TEMPO. Como conseqüência, seu sentido de LUGAR é intensificado chegando a níveis torturantes. Elas ficam deitadas na grama e são consultadas por poetas e pintores do MUNDO inteiro. A esses que não vêem o TEMPO imploram-se que descrevam a localização exata das árvores na primavera, a fora da neve nos Alpes, o angulo dos raios solares ao banhar uma igreja, a posição dos rios, a localização dos charcos, o desenhos que formam pássaros numa revoada. Mas esses que não vêem o TEMPO são incapazes de contar o que sabem. Porque a fala requer uma seqüência de PALAVRAS, ditas no TEMPO.
